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2012-01-08


A capital colombiana é considerada exemplo de acessibilidade na América Latina

Estacionamento é problema particular. Ruas são para deslocamento de pessoas, não de carros. Administro a cidade para o público". Com esta polêmica resposta o então prefeito de Bogotá, Henrique Peñalosa (1998-2002), deflagrou uma revolução urbana nesta cidade que se expande com invejável planejamento sem data pra acabar, como toda revolução enseja. Economista por formação, o prefeito decidiu implantar o "Sistema Transmilênio" de transporte público como equipamento indutor da expansão de Bogotá baseado na integração de ônibus tipo BRT (Bus Rapid Transit) inspirado, incrivelmente, no que vira em Curitiba, Goiânia (Eixo Anhanguera) e outras poucas capitais da América do Sul.

História

Até o final dos anos 90 Bogotá, capital da Colômbia de 7,2 milhões de habitantes, não contava com qualquer sistema de transporte decente, a exemplo de dezenas de cidades brasileiras e outras mais pobres da América Latina. Ônibus de todos os tipos se misturavam e competiam com vans, kombis, triciclos, táxis e carros "promovidos" a táxis-lotação, resumindo o transporte de passageiros. Mas o caos começou a mudar com a chegada deste prefeito incomum no jeito de gerir e encarar os paradigmas de uma cidade até então condenada à inviabilidade.

Doze anos depois, Bogotá não é mais a mesma metrópole bagunçada no seu jeito de ir e vir. Democratizou-se o uso dos espaços urbanos, e a tecnologia brasileira concebida pelo "alcaide-mor" Peñalosa transformou-se em realidade. Seus sucessores deram sequência à obra, e o novo prefeito que tomou posse neste 1º de janeiro, o ex-guerrilheiro Gustavo Petro, debate o metrô como tecnologia a ser incluída no sistema.

Com a implantação do Transmilênio foram necessárias mudanças de conceitos urbanísticos. Corredores exclusivos para ônibus; uso do solo radicalmente controlado; calçadas acessíveis e soerguidas; rebaixamentos padronizados e passarelas democráticas; restrição de estacionamentos; construção de espaços bucólicos de convivência; valorização de praças; e a rede integrada de 420 quilômetros de ciclovias estruturadas, uma das maiores do mundo, com seguros estacionamentos de bicicletas - tudo isso muito bem planejado e sincronizado à reforma estrutural da política de mobilidade urbana desta metrópole.

CUSTOS AO USUÁRIO

Na infraestrutura, o sistema conta com 84 quilômetros de corredores exclusivos e 633 quilômetros alimentadores distribuídos por 1.290 ônibus articulados, 518 alimentadores e 114 estações localizadas em nove zonas urbanas. Pesquisas recentes publicadas no jornal bogotano El Espectado" (agosto de 2011) identificaram que um entre cinco proprietários de automóveis migrou para o Transmilênio por ser a opção mais rápida, segura e barata de ida e volta ao trabalho.

Com a tarifa integrada equivalente a R$ 1,70 os 1,786 milhão de usuários diários do sistema transitam por toda a Bogotá de forma nervosa, mas ágil, segura e integrada. Ninguém do povo compromete mais que R$ 70 por mês com o transporte público integrado (o salário mínimo na Colômbia é equivalente ao brasileiro). Os trabalhadores formais ainda usufruem de auxílio-transporte de R$ 60/mês e não há gratuidades de qualquer espécie. É lei.

Cáli criou seu sistema

Distante 440 quilômetros de Bogotá, Cáli tem quase o dobro da população de Goiânia (2,3 mi de habitantes) e desde 2008 reproduz as políticas de transportes do Sistema Transmilênio de Bogotá por meio da Metrocali. Cidade horizontalizada, Cáli experimenta a migração de um sistema de transporte informal para a formalidade. Transporta 360 mil pessoas/dia nos seus dois eixos integrados, e já conta com terminais de embarque semelhantes aos de Bogotá. Acredita o engenheiro Diego Azenha, responsável pelo planejamento e controle de frota da União Temporal de Bilhetagem e Tecnologia (UT), entidade jurídica e operacional do sistema, que nos próximos dois anos Cáli estará totalmente redesenhada. Por outro lado é modesta a integração cicloviária.
 

Programas ambientais inseridos

A implantação do Sistema Transmilênio traz no seu bojo vários programas ambientais. A recuperação de espaços urbanos é visível em qualquer lugar da cidade, como o Eixo Ambienta" e o Espaço San Victorino, onde intervenções urbanísticas devolveram à população oportunidades de ganhos ambientais. Paralelamente, somaram políticas de monitoramento de ruídos, controle de opacidades, manejo das águas e resíduos sólidos das garagens. Números confirmam que em Bogotá deixaram de circular cerca de 7 mil veículos por dia. Essas economias de transportes significaram entre 2001 e 2009 redução de 1,671 milhão de toneladas de emissão de CO2 lançadas ao ar, o que representou para a economia local algo próximo de R$ 8 bi.

Uma tese de segurança pública se confirmou com a implantação do sistema Transmilênio. Houve expressiva queda no índice de homicídios entre 2002 e 2010. Somente no eixo Caracas, a mais eloquente reforma estrutural do sistema, houve redução de 90% no índice de violência urbana. Melhorar e equipar espaços urbanos induz à humanização e efetivo controle da cidade.

Parte dos ganhos com segurança está no Centro de Controle Operacional (CCO), que monitora por câmeras on-line o movimento das estações de embarque/desembarque de passageiros.

"BiciBog", bicicletas públicas acessíveis

Ciclofaixas em Bogotá são compartilhadas com passeio público e mobiliário urbano


As bicicletas são queridas em Bogotá. Dispõem de 420 quilômetros de ciclovias, ciclofaixas e ciclorrotas integradas ao Transmilênio. "Mais 220 quilômetros serão implantados nos próximos 10 anos", informa o engenheiro de campo Richard Sabogal Huertas, do Departamento de Transportes e Infraestrutura da Secretaria de Mobilidade de Bogotá, responsável pelo programa-piloto BiciBog, sistema de bicicletas públicas, juntamente com o Centro de Desenvolvimento Urbano da Universidade Nacional.

Trata-se de um programa semelhante aos existentes em Paris, Amsterdã, Portland, Copenhague e Roma. Usuários cadastrados descem das estações de transportes e acessam pontos de conexão de bicicletas públicas para completar trajetos. Inicialmente instalada num parque da cidade, o BiciBog obedece ao cronograma preliminar de avaliação de serviços, mas já conta com a simpatia da população. Somente no período experimental matutino 1,4 mil bogotanos enfileiram-se para conhecer a mais recente novidade de transportes públicos da cidade.

Não é pra menos o interesse. Afinal, os ciclistas bogotanos contam com seis bicicletários com capacidade de acomodação próxima de 1,5 mil vagas, e paraciclos disponíveis pelos seis cantos da cidade. "Poucas as vagas", exclamou o usuário Carlos Moreno quando avaliava o programa-piloto de bicicletas públicas "BiciBog". As calçadas de Bogotá são responsabilidade do poder público. Padronizadas nas vias arteriais e espaços de convivência públicos, elas chamam a atenção pela sua dimensão e paginação. Todas possuem os equipamentos básicos de acessibilidade com foco para pessoas com deficiência. Soerguidas 30 centímetros do leito carroçável das vias e com rampas direcionadas, são vistas nas regiões centrais e periferias como importantes porque garantem cidadania. Bogotá "comprou" guerra contra os automóveis e motos.

Turismo de mobilidade também gera progressos

Desde 2004 o engenheiro Accosta se transformou numa espécie de embaixador do Sistema Transmilênio perante o mundo. Simpático e dono de impecável didática, ele discorre diariamente em palestras sobre os aspectos técnicos e políticos do sistema para visitantes. Há custos para isso (US$ 100 por pessoa), que são revertidos para o financiamento do sistema. Accosta já recebeu aproximadamente 1,2 mil delegações envolvendo cerca de 14 mil técnicos, dos quais 74% de outros países. Brasileiros são notórios visitantes, mesmo a tecnologia tendo origem aqui. Indagado sobre, respondeu que "não basta ter a tecnologia e os fundamentos, é preciso de decisão política para fazer".

Este foi o caso do grupo de 10 técnicos de Goiás que decidiu conhecer os sistemas de transportes de Bogotá e Cáli. O objetivo da viagem foi conhecer e vivenciar as experiências de Bogotá repercutindo-as no Brasil e Goiânia (RMG). Neste "turismo de trabalho" o grupo vivenciou operações, corredores, estações, garagens, centros de monitoramento, departamentos de recursos humanos e deslocamentos de rotina utilizando ônibus e bicicletas, inclusive nos horários mais críticos. Como disse Antônio Rodrigues da Superintendência de Transportes e Trânsito de João Pessoa/PB que se juntou aos goianos na palestra institucional do Transmilênio: "isso aqui é de dar inveja".

Visitaram o sistema de transporte da Colômbia, Décio Caetano Vieira Filho, vice-presidente do Setransp; Erika Cristine Kneib , da Universidade Federal de Goiás e do Fórum da Mobilidade Urbana; Hugo Santana de Moraes Santos, Miguel Jacinto Lopes e Indiara Ferreira, da HP Transportes; Leomar Avelino, do Consórcio da Rede Metropolitana de Transportes Coletivos (RMTC); Maristela Alencar, da Agência Nacional de Transportes Públicos, Regional Centro-Oeste; Miguel Fernandes da Silva, consultor em gestão ambiental urbana; Paulo Souza Neto, do MDT-Goiás; e Antenor Pinheiro, Secretaria das Cidades/GO e ANTP Regional Centro-Oeste.

Fonte: O Popular

Autor: Antenor Pinheiro


 




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