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2012-09-24


O carro não é o culpado

 Dia 22 de setembro, como nos últimos anos, se comemora o “Dia Mundial sem Carro”. Mas por que esses radicais querem tirar-me o meu automóvel? Chamo a atenção, apelidando de radicais estas pessoas que fazem este movimento, porque acredito que continuarei usando meu automóvel, mesmo sabendo que meu custo de deslocamento indubitavelmente terá que aumentar.
Embora não concorde com esses radicais que são contra o uso do automóvel, existe outro aspecto da campanha que me faz estar junto com eles, todos os anos: conscientizar que o automóvel não faz parte do corpo humano. A maioria de nós, os usuários de automóvel, age como se nossos carros fizessem parte de nossos corpos. Exige-se que os automóveis tenham o mesmo direito que cada pessoa tem, como cidadão. Exige-se para os carros o espaço para passarem, em nome do “direito do ir vir”, estabelecido pela nossa Constituição, para todos os cidadãos. Exige-se ainda o direito de estacionar (guardar) os seus veículos nos locais públicos, em nome do direito de uso daquilo que é de todos os cidadãos.
Como os veículos não fazem parte do nosso corpo, nem são humanos, não se pode garantir-lhes os mesmos direitos do humano. Ou seja, os carros não podem ser cidadãos e, consequentemente, não têm direito constitucional de “ir e vir”, como têm os cidadãos.
Os veículos não podem ter direito de ocupar os espaços públicos porque não são humanos e, consequentemente, não possuem direitos como os cidadãos devem ter: direito a espaços destinados exclusivamente para passarem ou pararem, no momento que desejarem ou precisarem.
Partindo do princípio que é dever do poder público garantir o “ir e vir” de todos: erra o poder público ao deixar uma pista congestionada, com pessoas usando veículos individuais e coletivos juntos. Ou seja, o poder público deve garantir que todas as pessoas se desloquem e isso só é possível priorizando os modos de deslocamento que permitem que todos se desloquem. Os modos coletivos (reunião de vários indivíduos da mesma espécie), naturalmente, são o único capaz de deslocar todas as pessoas que desejarem. Outra característica importante do transporte coletivo (veículo para transporte de pessoas mediante pagamento dito proporcional) é sua acessibilidade física e financeira.
Não me parece sensato que nós, os usuários de automóveis, sejamos privilegiados com tanto espaço público como nos é disponibilizado hoje, mesmo que sejamos minoria. Em função da falta de disciplinamento dos espaços públicos, as pessoas estão sendo obrigadas a utilizar os veículos automotores individuais e isso, também, não parece inteligente. Os deslocamentos por tais veículos são mais caros e, consequentemente, torna-se injusto com os que ganham menos. Portanto, é um círculo vicioso: os ônibus não funcionam porque os automóveis congestionam as ruas; e porque os ônibus não funcionam a única saída são os automóveis/motocicletas – isso precisa ser invertido urgentemente – a cada 33 horas que demoram, uma pessoa morre em Goiânia.
Partindo do princípio que um automóvel é um bem (patrimônio) e não uma parte do corpo humano ou um cidadão: não é sensato o poder público garantir-lhe o espaço. Ou seja, o poder público tem que garantir os espaços para as pessoas passarem ou pararem no momento que desejarem ou precisarem e não, tais espaços, para os seus patrimônios. Não tem sentido eu sair com meu automóvel para fazer compra e deixar estacionado, guardado, num via pública à custa da sociedade, onde boa parte desta jamais terá direito de fazer o mesmo. Local para guardar meu patrimônio é problema meu e não do poder público. Assim, é de responsabilidade dos usuários de automóveis a guarda de seu patrimônio.
Vamos devolver os espaços públicos, hoje destinados aos estacionamentos ou guarda dos automóveis, para as pessoas. Aí sim, estes espaços eu utilizarei, e como utilizarei. Como qualquer goiano, de nascimento ou de coração, gosto muitíssimo de conversar e não tem lugar melhor para conhecer outras pessoas e bater um bom papo do que os lugares públicos. Agora, os espaços públicos precisam ser agradáveis, e, principalmente, muito bem arborizados.
Aproveito para propor aos atuais e futuros administradores que sejam mais ousados: abram as principais ruas das cidades para que as pessoas se desloquem de transporte coletivo, de bicicleta e a pé; abram as ruas comerciais da cidade para passagem exclusiva de pessoas (pouco tempo depois os comerciantes agradecerão e povo aplaudirá); devolvam todos os espaços públicos, hoje, destinados à guarda dos automóveis para as pessoas (os cidadãos); plantem uma árvore a cada 15 metros de cada lado da via, no mínimo; evitem impermeabilizar mais o solo – não permitam a construção de garagens ou estacionamentos coletivos na superfície; e não permitam que os motoristas descumpram as regras sociais de convivência.
Quanto às motocicletas: são veículos motorizados de uso individual. Portanto, devem ser tratadas como automóveis.
Quanto aos usuários de automóveis: os poucos que sobrarem terão que custear o uso individual dos espaços públicos. Em contrapartida, terão de volta uma cidade menos poluída, menos árida e, consequentemente, mais agradável de viver.
Lembrando que é da nossa natureza: “Se nos der um espaço, ocuparemos.” Entende-se que se deva educar os motoristas e motociclistas na sua habilitação. Quando estiver no trânsito, só devem ser feitas campanhas, se forem de punição. Se para se habilitarem, os motociclistas ou motoristas apreendem o que é errado, qual o sentido ficar dizendo novamente o que é errado? Entende-se que a falta desta ação punitiva seja a responsável pela epidemia de mortes, hoje vista no nosso trânsito.
Assim, como o carro não é humano, ele não tem culpa. E como todos os cidadãos têm os mesmos direitos, defendo que todos tenham direito à mesma cidade, aos mesmos espaços: uma cidade de todos e para todos, os seres humanos. E, para nossa felicidade, desta feita, Goiânia esta comemorando hoje o dia da mobilidade urbana. Então, vamos participar destas manifestações em defesa da Mobilidade Urbana para as pessoas.
(Miguel Fernandes, gestor ambiental urbano)

Fonte: Diário da Manhã




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