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2013-02-14


Goiânia e o exemplo de Barcelona

 Sempre que se fala em planejamento urbano, mobilidade urbana e qualidade de vida, algumas cidades europeias têm grande destaque. Várias delas com milênios de idade, conseguiram evoluir muito. Dentro de diversas cidades europeias com boa qualidade de vida, destaca-se aqui o exemplo de Barcelona, na Espanha.
A Região Metropolitana de Barcelona ( RMB) é composta por 5 milhões de habitantes. Apenas a cidade de Barcelona abrange 1,6 milhão. Na RMB, cerca de 50% da população se desloca a pé ou por bicicleta, 30% por transporte coletivo e 20% por veículos motorizados individuais. No que diz respeito à gestão, existe uma autoridade metropolitana, que tem o objetivo de responder a uma necessidade social crescente de melhoria do transporte público e redução dos congestionamentos, a partir de uma ótica institucional coordenada e integrada, que gerencia os planos e sistemas de transporte e mobilidade.
No item Transporte Coletivo, cerca de 44% dos usuários o consideram mais rápido, mais barato ou mais cômodo do que utilizar o carro. A demanda do sistema, com seus diversos modos e tecnologias, vem subindo desde 2009, e sua tarifa é subsidiada em 60%. Já no quesito Utilização do Automóvel, há um controle a partir de medidas de cobrança por seu uso e estacionamento (cujos recursos angariados são revertidos para a melhoria da infraestrutura do transporte coletivo e do não motorizado).
No item Bicicleta, Barcelona é dotada de toda uma infraestrutura que privilegia e valoriza as ciclovias, com segurança. Numa escala de zero a dez, a segurança do modal bicicleta obteve nota maior do que a segurança associada a andar de carro. Além disso, existem as bicicletas públicas para aluguel, com um sistema denominado Bicing.
Sobre os pedestres, talvez este seja o diferencial de Barcelona em relação a alguns outros grandes centros europeus: a cidade é pensada para o pedestre. E isso é realmente observado em suas ruas, como política efetiva de qualificação e requalificação urbana de espaços antigos ou contemporâneos. A segurança em se andar a pé obteve nota 8,2 da população, enquanto andar de carro alcançou 7,5.
Tudo isso demonstra que Barcelona é uma cidade pensada para os pedestres. Os espaços são pensados para as pessoas caminharem, viverem, contemplarem e se deslocarem, gerando uma diversidade de formas, cores e elementos, planejados desde a escala “micro”.
Trazendo este exemplo para uma comparação com a Região Metropolitana de Goiânia (RMG), é interessante se fazer um paralelo propositivo, para que se possa aprender um pouco com isso. A RMG abrange cerca de 2,3 milhões de habitantes, e o município de Goiânia, 1,3 milhão. Na RMG, a partir de dados de 2000, cerca de 32% da população se deslocavam a pé ou por bicicleta, 30% por transporte coletivo e 36% por veículos motorizados individuais.
No aspecto Gestão, cada cidade da RMG conta com uma Secretaria Municipal para gerir o trânsito e/ou mobilidade. Mas para que as políticas de mobilidade sejam efetivas, todas as Secretarias e órgão afetos (isso inclui planejamento urbano, meio ambiente, saúde, segurança etc.) precisam trabalhar de forma articulada, seja no âmbito do mesmo município, seja no âmbito metropolitano. Além disso, é mister estruturar tais órgãos, com fortalecimento institucional e uma gestão técnica capacitada.
Em Goiânia, o item Transporte Coletivo vem perdendo demanda, seja pela concorrência com outros modos, seja pela falta de prioridade e diminuição da velocidade operacional. Este sistema conta com uma gestão metropolitana e estabilidade institucional muito relevantes, mas são necessárias ações públicas, municipais e metropolitanas que priorizem efetivamente este modo, a exemplo dos corredores preferenciais e exclusivos e outros modos e tecnologias, que venham a formar uma rede de transporte coletivo.
No quesito Utilização do Automóvel, é necessário romper um paradigma histórico da sua priorização, avaliando-se a implementação de políticas e ações que restrinjam seu uso indiscriminado, gerando-se receitas para financiar os modos coletivos e não motorizados.
No item Bicicleta, a RMG carece, primeiramente, de infraestrutura apropriada para proporcionar segurança aos usuários deste modo. Qual seria a nota dada pelos ciclistas para a segurança dos deslocamentos por bicicleta em Goiânia?
Os quesitos Pedestre e Planejamento da Cidade devem andar juntos: é necessário incorporar a ideia de transformar nossas cidades em cidades para pedestres, ou para pessoas, pensando e planejando espaços para as pessoas caminharem, viverem, contemplarem e se deslocarem.
Enfim, seja no exemplo da RMB ou da RMG, tais relatos e reflexões corroboram que o planejamento urbano, a mobilidade, a gestão urbana e a própria vivência da cidade são processos que devem ser pensados articulados, de forma dinâmica.
O exemplo de Barcelona não deve ser copiado ou adotado na íntegra. Afinal, a cidade espanhola também tem inúmeros problemas. Mas deve provocar em nós, cidadãos e gestores goianienses, a reflexão, a capacidade de reconhecer e aprender que existem maneiras de melhorar a mobilidade e a qualidade de vida em Goiânia e na RMG. Precisamos, portanto, iniciar o processo.

Erika Cristine Kneib é arquiteta e urbanista, doutora em Transportes e professora e pesquisadora da
Universidade Federal de Goiás




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