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2015-10-15


Pelo menos oito modificações ou eliminações de praças em favor dos carros já ocorreram desde 2006 na capital

 Até o fim deste ano, Goiânia não terá mais a Praça do Relógio, no Jardim Goiás, que está sendo recortada pela Prefeitura para a continuidade da Avenida Jamel Cecílio e da Rua 12, sob o argumento de aumentar a fluidez no trânsito em uma região crítica da cidade. As obras começaram na terça-feira. A solução para o problema dos carros suscitou discussões sobre a perda de referências e até da identidade da capital, já que a praça é considerada um equipamento característico da Região Sul. Nas redes sociais há até mesmo uma campanha: #SalvemaPraçadoRelógio.

O recorte, modificação ou eliminação de praças para dar mais espaço aos carros está longe de ser uma prática nova em avenidas da cidade e se repete em várias administrações do município. Desde 2006, já são pelo menos oito praças que sofreram adaptações ou desapareceram para dar espaço aos veículos. A Praça do Chafariz na T-63 com 85, por exemplo, deu lugar a um viaduto em 2008. O mesmo ocorreu na Praça do Ratinho um ano antes.

Em alguns casos, trata-se de uma solução rápida e pontual, em que se troca uma rotatória por um trecho semaforizado, como foi na Praça Walter Santos em 2006 e na Edilberto Veiga Jardim em 2011, cortadas ao meio para dar maior fluidez ao trânsito.

Em outros casos, a intervenção é mais grave. São os casos das praças A e da Bíblia, que há muito tempo são terminais de ônibus, e a Praça do Bandeirante, que ficou apenas com a estátua do Bandeirante, sem a praça.

BRT

Em 2016, a praça existente no cruzamento da Avenida 90 com a 136, no Setor Sul, vai dar espaço para o corredor da BRT (Bus Rapid Transit, da sigla em inglês). O mesmo vai acontecer no cruzamento da Perimetral Norte com a Goiás Norte.

O secretário municipal de Trânsito, Transporte e Mobilidade (SMT), Andrey Azeredo, afirma que a Praça do Relógio, na prática, é uma rotatória, cuja função é conter o tráfego na Avenida Jamel Cecílio e que, atualmente, ela se tornou obsoleta. Andrey conta que o local foi denominado Praça Rotary Club Internacional em 10 de outubro de 1996 e nunca foi espaço de convívio para as pessoas. Abaixo da praça, há as casas de máquina feitas para que o relógio funcionasse e, por isso, o espaço permeável do local é menor do que em uma praça comum. “As referências da região são a Marginal Botafogo, a Avenida E, o viaduto da BR-153 e GO-020, o Centro Cultural Oscar Niemeyer e até o shopping, mas a rotatória não”, afirma o secretário, contestando os críticos que condenam a mudança.

Pesquisa na internet revela, no entanto, que lojas da Avenida Jamel Cecílio e empreendimentos residenciais da região consideram a Praça do Relógio como referência, assim como motoristas que trafegam pela via, até mesmo para a indicação de endereços. Além disso, o local guardava características paisagísticas diferentes, que criavam um clima de certa afetividade com a população.

Referências

A arquiteta e urbanista Maria Ester de Souza, vice-presidente do Conselho de Arquitetura e Urbanismo de Goiás (CAU-GO), afirma que não cabe ao Poder Público definir quais são as referências da cidade e, sim, o próprio cidadão. “A referência pode ser qualquer coisa, até uma árvore numa esquina ou em uma avenida, isso depende da relação que a pessoa tem com a cidade”, diz. Para ela, o secretário nega a importância histórica da Praça do Relógio, construída na década de 1990 para ser um marco na entrada sul de Goiânia, independente do tempo em que isso ocorreu.

Doutora em Transportes e professora da Universidade Federal de Goiás (UFG), Erika Cristine Kneib afirma que os marcos urbanos são importantes para a legibilidade da cidade, que é necessária para a relação com o cidadão. Kneib explica que os marcos são usados na leitura da cidade, uma forma de reconhecer e se afeiçoar com o espaço urbano, além de servir também na construção da paisagem. “A Praça do Relógio já foi um ponto paisagístico importante e se o problema é ela não ser uma praça, que construam a praça para o relógio.”

Utilidade

Andrey Azeredo explica que o recorte na Praça do Relógio é uma decisão técnica que procura resolver o problema da Avenida Jamel Cecílio e, por isso, não ocorre sozinha. Além desta mudança, cuja decisão foi tomada em 2013, há um projeto de reconfiguração semafórica e proibição de estacionamento em parte da via. “Com as mudanças, seria ainda pior se mantivesse a rotatória. O semáforo organiza melhor o trânsito e melhora a fluidez. Hoje, a rotatória já não beneficia o trânsito local, é uma demanda de quem está na região.”

Maria Ester, em contrapartida, acredita que a rotatória no local, por ter mais de quatro saídas, funciona melhor que a semaforização na ordenação do trânsito. “Além disso, ela funciona como barreira da água em enxurrada, quebrando a velocidade e ajudando na drenagem da cidade.” Ela também afirma que a rotatória facilita a fluidez e a segurança, já que não há respeito pela semaforização. Andrey diz que, nesse caso, o argumento seria usar o problema da falta de respeito para impossibilitar mudanças na cidade.

Urbanistas defendem marcos

Professores e urbanistas afirmam que cabe ao poder público defender os marcos urbanos, importantes para reconhecimento da cidade pelos cidadãos.

A professora Erika Kneib afirma que é o poder público quem tem de preservar os marcos urbanos e tratá-los como bem comum. “É mais uma rotatória que vai ser cortada na cidade para o benefício dos carros. As pessoas são contra as rotatórias porque elas são mal planejadas e mal sinalizadas”, acredita. Kneib reforça que a perda das praças só beneficia os carros e não melhora em nada a vida dos pedestres. A modificação do espaço urbano faz com que as pessoas deixem de reconhecer a cidade.

Para a arquiteta e urbanista Maria Ester de Souza, quando as pessoas perdem suas referências na cidade elas acabam deixando de conviver com o espaço público, tornando este apenas um lugar de passagem, ou seja, para os carros e não para as pessoas. Muitas vezes, os cidadãos chegam a não reconhecer a cidade sem os equipamentos públicos de referência que passam a ser, então, locais privados, como supermercados, shoppings e outros do gênero.

Também professor da Universidade Federal de Goiás (UFG), o geógrafo Tadeu Arrais cita o urbanista norte-americano Kevin Lynch para afirmar que “uma cidade rica em estímulos sensoriais é aquela que possui muitos pontos marcantes”. As praças são esses pontos, necessários ao espaço urbano, de modo que até mesmo motoristas se sentem melhor ao se locomover junto a praças e parques do que em avenidas retas.

“Pela cidade”

Kneib acredita que a campanha realizada pela internet para salvar a Praça do Relógio tem sentido mais amplo do que apenas impedir a ação, sendo um discurso de mexer na cidade, contra a política utilizada há anos. Ester concorda com ela e se refere a uma política mais ampliada, mais geral do que específica. “É uma campanha pela cidade e a internet tem essa característica, em que as pessoas se colocam a favor do protesto, por se identificarem com esses elementos”, diz.

Sobre a perda da referência local, o secretário de Sustentabilidade Nelcivone Melo salienta que Goiânia é uma cidade jovem em que as referências são recentes e não perenes, de modo que elas podem mudar com o tempo, a partir do surgimento de melhorias para cada região em cada tempo.

Paço diz que mudança não fere sustentabilidade

O recorte na Praça do Relógio, no Jardim Goiás, não contradiz com o discurso da Prefeitura de Goiânia em favor do desenvolvimento sustentável, segundo o Paço Municipal. Secretário de Sustentabilidade, Nelcivone Melo, diz que a visão de contradição pode ocorrer em um primeiro momento, mas lembra que há outras ações que suprimem esta pontualmente, como a revitalização do Jardim Botânico e do Parque Flamboyant, ambos na Região Sul, a mesma em que haverá as mudanças no trânsito.

Secretário de Trânsito, Andrey Azeredo lembra que no próximo dia 23 a Prefeitura vai plantar 82 mil mudas de árvores do espaço público da capital, o ampliaria a área verde urbana da capital. Nelcivone explica que as mudanças são escolhas e as críticas são naturais e já esperadas, mas acredita que tendem a diminuir quando as pessoas entendem que existe algum benefício. “Ali é uma situação limite no trânsito, não teria como não mexer, mas fazemos medidas para mitigar na própria região, com os parques.”

Fonte: O Popular - Cidades

Autor: Vandré Abreu




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